Noite fria do dia 24 de junho. O que melhor do que se enrolar num edredon e assistir um filminho com a namorada? Aparentemente nada. Mas de repente, meu pai surge com uma idéia de sairmos, irmos todos juntos curtir um Concerto Musical. “ORQUESTRA?!? Nem ferrando!” Eu pensei logo de cara. Mas depois, de última hora, resolvi ir.
Indo direto pra parte que interessa, mesmo com o frio e deixando o carro num lugar com uma enorme placa “Trecho Sujeito a Inundação” bem ao lado do teatro municipal, fui sem ressalvas ver o show. Sem contar que lá dentro devia estar mais quente do que aquele frio congelante que estava na rua e talvez no interior do teatro, eu não corria o risco de me afogar em caso de chuva.
Quando digo que esse foi meu primeiro concerto, não levo em consideração o Video Games Live que fui em 2006 em São Paulo, que é muito mais do que isso. Tem as músicas, performances, shows de luz e tudo mais. Acabei ficando curioso para conhecer como seria uma orquestra verdadeira, sem firulas que me desviassem do que eu estava ali pra presenciar: a música em si. E isso, eu posso afirmar desde já que tive o prazer de conhecer.
O concerto foi uma apresentação da OFPEM (Orquestra Filarmônica da Escola de Música de Piracicaba… não, não procure nexo da sigla com o significado dela) no Teatro Municipal de Piracicaba (Não!!! Sério?!?!) e contava com 55 músicos diversos, mais o maestro, o sempre simpático alemão, Ernst Mahle, dono da escola de música mais popular da cidade.
Concerto começado, começou também minha viagem pela primeira experiência real da minha vida com a música em sua melhor (e talvez única e verdadeira) forma. O tema do evento eram músicas brasileiras, que mais uma vez meu preconceito (aquele mesmo que gritou “ORQUESTRA?! Nem a pau” dentro da minha cabeça antes) já me fez esperar samba ou uma MPB fraca. Nada disso. Cada execução parecia a trilha sonora dos melhores filmes que já vi na vida. Eram vivos, animados, alegres. Cada música ganhava vida em cada acorde feito e as melodias ganhavam cores que me fizeram boa parte do concerto, viajar nas idéias e esquecer que eu estava ali.
O público dava um show a parte de educação e bom senso, batendo palmas nas horas certas e se calando nos momentos em que devia se manter em silêncio. Palmas essas que eram recebidas com verdadeira alegria, descaradamente expressada no sorriso velhote do maestro Mahle ao final de cada trecho.
As músicas todas me faziam lembrar de algo, que na maioria das vezes não consegui chegar a conclusão de que exatamente “algo” se tratava, então associei a maioria a grandes filmes da minha infância. Como não sou profundo conhecedor das músicas da raiz brasileira, acabei apenas me focando em prestar a atenção nas melodias lindas que foram tocadas e nas execuções perfeitas e precisas de cada músico, que davam a entender que faziam o que amavam e estavam ali mostrando todo seu talento e sua arte. Mas tenho certeza que ouvi algum “O que que a bahiana tem?!” no meio de tudo, isso eu ouvi.
Pra finalizar, além de toda a emoção de presenciar aquele show de qualidade, melodia, harmonia, sons e cores diferentes como jamais havia na vida, fiquei impressionado com a vivacidade e força do maestro Ernst Mahle. Um senhor de seus 80 e poucos anos regendo a orquestra com maestria (com trocadilho e tudo) com a força e garra demonstrada ao público, de deixar qualquer garoto de 20 anos com vergonha. Ele foi um cara que nasceu na música e vive disso até hoje, mas nem por um segundo, me deixou sentir que aquela não era sua primeira vez. A sabedoria de um veterano e gênio do que faz, caminhou lado a lado coma humildade, vivacidade e empolgação de um novato em sua primeira apresentação.
No saldo geral, um concerto que eu sequer ia, acabou sendo uma das experiências mais gratificantes da minha vida. Tão emocionante quanto ver aquele filme clássico ou acabar aquele livro que me prendeu por 1 ano e eu torcia pra sinceramente, não acabar. E sabe quanto isso me custou?! ZERO. NADA. NIENTE. FREE. GRÁTIS! No máximo, 2 horas da minha vida. Nada mais.
Não me acho o cara mais sábio do mundo por isso, afinal estou criando o mal-hábito de não ler mais livros. Mas compenso isso sendo apaixonado por música clássica agora, e o bom e velho teatro que sempre curti. Num país como o Brasil onde você é recriminado e “xingado” de nerd, sabe-tudo e etc quando vai a um evento desse tipo, e está dentro do padrão se curte Créu e afins, eu desejo cada vez mais ser visto como louco do que me encaixar na normalidade. Viva a boa música.