Topo



Reforma ortográfica

por Paulo Rezzutti

Nada mais do que normal ouvir uma velhinha portuguesa dizer ao marido, ao se atrasar para o café da tarde: “A bicha do cacete estava grande… por isso a demora…” No que o velhinho responde: “Não se aborreça, cheguei quase agora também, tinha bicha para tomar pico no cu”.

Glossário Português x Brasileiro:
Bicha = Fila
Cacete = Bengala de pão
Pico no cu = Injeção nas nádegas

Um diplomata brasileiro foi convidado para um recepção em Lisboa. Pediu a sua secretaria que ligasse para o Ministério das Relações Exteriores português perguntando se precisava ir de smoking. A funcionária respondeu que bastava que “ele fosse de fato”, no que a secretária brasileira argumentou: “Sim, ele vai, só queria saber se precisa de smoking”. Ao que a portuguesa retrucou: “Não precisa, basta que ele venha de fato”.

Glossário Português x Brasileiro:
Fato = Terno completo

Em muitos banheiros públicos portugueses é comum encontrar o seguinte cartaz: “É favor carregar no autoclismo da retrete”.

Glossário Português x Brasileiro:
Carregar = Apertar um botão
Autoclismo = Descarga
Retrete = Vaso sanitário

O esférico passou pelo guarda-valas, mas bateu na moldura e desviou-se para fora do campo. O árbitro declarou pontapé de canto.

Glossário Português x Brasileiro:
Esférico = Bola
Guarda-valas = Goleiro
Moldura = Trave
Pontapé de canto = Escanteio

Brincadeiras e duplos sentidos a parte, a língua portuguesa não é uma só. Além dos diversos significados que palavras comuns de nosso dia-a-dia adquirem em outros países lusófonos, ainda existe de diferente o sentido das frases, como não nos deixa mentir o blog Kibeloco, onde é narrada a aventura de se pedir um refrigerante a bordo de uma avião rumo a Angola, e a aeromoça responder que tal refrigerante tem, mas não há… E a senhora que ligou para a recepção do hotel em Portugal dizendo que ela e o marido, brasileiros, precisavam de um durex e que se não desse para levarem até o quarto o marido poderia utilizá-lo lá na recepção mesmo… O problema é que “durex” em Portugal é o que nós conhecemos como preservativo.

Toda essa conversa é para tocar no assunto do Acordo Ortográfico. É verdade que, quando se faz um tratado entre os países lusófonos, existe a necessidade de se produzir duas versões, uma no português de Portugal, outra no dos países signatários, para que as particularidades das línguas não prejudiquem a interpretação. Como se fazia antigamente entre as nações, onde o latim era a língua que “desempatava” os entraves diplomáticos. Mas será que, com a riqueza cultural das nações lusófonas envolvidas, tirar trema, colocar e tirar hífen e acrescentar três letras ao alfabeto será o suficiente para se estreitar os povos lusófonos e suas diferentes formas de pronunciar e escrever ou ainda pensar? Creio que não. Saramago, por exemplo, não permite que seus textos sejam “traduzidos” para o português do Brasil. Se eu fosse Nobel de Literatura, também não permitiria, onde já se viu, na ex-colônia dizem que quem tem sotaque são os portugueses!!! Já o Windows não tem tanto escrúpulo: inventou um português brasileiro, presente em todos os seus produtos, e um outro tipo de português, que funciona bem para os do outro lado do Atlântico, aqueles que carregam no rato, enquanto nós aqui clicamos no mouse.

Além da dor-de-cabeça que será para as escolas, ou melhor, para o bolso dos pais, que terão que renovar o material escolar de seus miúdos e putos do outro lado do Atlântico, e cá, de suas crianças e adolescentes, fica a dúvida… isso realmente era necessário?

Para os que se interessam nas diferenças de nossas línguas:

- É golo, pá - de Marcos e Luis Bogo
- Schifazfavoire (Dicionário de Português) - de Mário Prata

Para demais curiosidades linguísticas (o trema caiu, viu?):

- As líinguas divertem, de Oswaldo Ballarin
- As línguas do mundo, de Charles Berlitz (neto do fundador das escolas de idiomas Berlitz)
- Tabus linguísticos, de Mansur Gueiros

Até a semana que vem!

Paulo Rezzutti
www.bazardaspalavras.com.br

3 comentários! Tá bombando! »
“Reforma ortográfica”

  1. Fernanda

    hahaha, exatamente, como grande parte da minha familia eh portuguesa, e grande parte ainda mora lá, eu sei bem o que você quer dizer com essas frases de ‘duplo-sentido’.

    Belo post =D

  2. VAMPIRA

    Paulo, confesso que há muito tempo estava querendo abordar no blog sobre a reformar ortográfica. Mas não sabia como. Mostrar o que mudou? O que vai mudar? A indignação de algumas pessoas? Eu não conseguia encontrar maneira de colocar.

    E você veio e nos deu a luz. Realmente, o seu jeito foi MUITO MAIS interessante e com um ótimo conteúdo! Eu tinha quando criança um dicionário português-português de Portugal. Chorava de rir com as piadinhas mas aprendi boa parte das palavras acima.

  3. Daniel Ferreira

    Pois é, eu sou outro que vem de familia portuguesa… quando alguns parentes vem pra cá fazer visita sempre rola esse tipo de confunsão.
    Lembro quando uma tia minha veio pela primeira vez pra cá quando eu era moleque… não entendia nada que ela falava xD

Deixe um comentário